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quarta-feira, abril 14, 2010

Diário de Alfredo (VII)

Sabem, acho que durante estes anos todos ela nunca me compreendeu.
Nunca mais mando vir uma noiva de Taiwan. Nunca mais!

quinta-feira, julho 02, 2009

Diário de Alfredo (VI)

Contemplo mais uma vez o suicídio e pergunto-me como é possível o gajo ter o cabelo tão fofinho e um sorriso tão brilhante?

Tenho de deixar de contemplar o suicídio. Deixa-me incrivelmente deprimido.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Diário de Alfredo (V)

Segunda-Feira,
Ainda deprimido. Segue-se um excerto da conversa telefónica com o Raul.

-Então Alfredo que fizeste ontem à noite para não poderes sair com a malta?
-Nada de especial. Sai com a Raquel.
-Com a Raquel? Ui. Que andaram a fazer?
-Nada. Fomos só dar uma volta e pronto, já sabes como é, eu falo sempre demais e acabei por entrar na típica conversa do "mas porque é que não estamos juntos?" e tal.
-Mano mas será que tu não aprendes? E ela?
-Bem, ela resolveu demonstrar-me porque é que já não estamos juntos.
-Discutiram?
-Não. Fomos para a cama. Fiquei esclarecido. Nunca mais volto a tocar no assunto.
CP

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Diário de Alfredo (IV)

Encontrei-me no outro dia com o meu irmão. A ocasião não era particularmente agradável mas o mais triste foi dar-me conta de que o nosso problema de comunicação ainda persiste, já que ele se recusou a dirigir-me uma palavra que fosse durante toda a cerimónia. Depois retirou-se, sendo enterrado num enorme caixão de mogno castanho forrado de cetim bordeux e com acabamentos em prata. Continua a querer fazer-me inveja e a mostrar que é melhor que eu. E consegue.
CP

quinta-feira, julho 19, 2007

Diário de Alfredo (III)

Quarta-Feira:

Cada vez percebo menos as mulheres. Sempre me disseram que a chave para uma boa relação estava na compatibilidade e na partilha de gostos. Na última sexta-feira saí novamente com a mulher que me tem feito feliz no último mês, a Filipa. Tudo parecia estar bem quando, de repente, ela começa com uma conversa estranha de que não se sentia bem. Disse-lhe que a compreendia e que também estava indisposto. Avancei com a minha hipótese de que a nossa indisposição teria origem nos calamares que tínhamos acabado de comer e que eu suspeitava estarem fora do prazo... ou vivos! Juro a pés juntos ter visto uns quantos saltar do meu prato e esconderem-se debaixo da mesa.
A Filipa recusou ouvir a minha teoria de que os calamares ainda estariam semi-vivos e afirmou que se estava a sentir mal com a nossa relação. Foi nessa altura que me pareceu que talvez a indisposição dela não fosse devido aos calamares e perguntei-lhe o que se passava. Ela insistiu em fazer algo que nunca entendi, perguntou-me se eu não via os sinais. Que descaramento! Mas quais sinais? Quanto muito vi umas luzes, um pisca-pisca vá. No máximo dos máximos, vi uns mínimos. Agora sinais? Mas afinal é uma mulher ou uma bicicleta? E serei eu um controlador aéreo? Sinais. E eu sei que sou meio míope mas acho que há maneiras melhores de dizer a alguém para mudar de lentes.

Enfim, depois de discursar sobre os sinais durante uma boa meia-hora, perguntou-me se eu ainda estava a prestar atenção. Disse-lhe que sim. Para os que estão a duvidar de mim, não eu não menti. Até então tinha estado a prestar atenção. Depois disso é que apaguei e quando voltei a mim ela estava a dissertar sobre como eu nunca lhe dou ouvidos ou algo do género, não sei bem pois tinha estado a pensar naqueles horríveis calamares e, por breves momentos, nos meus novos azulejos de casa-de-banho. Finalmente ganhei coragem, ou foi isso ou a dor de barriga era mesmo só dos calamares, e pedi-lhe para ser sincera comigo e dizer-me afinal de contas qual era o verdadeiro problema. Ela surpreendeu-me dizendo que o problema era sexo. Disse-me que na realidade não éramos compatíveis, algo que me deixou estupefacto. Balbuciei algo que soou mais ou menos como “Zmmmfffshhhgrough!” mas ela não entendeu. Porquê tanta incompreensão? Por momentos ainda pensei estar num filme do Lars Von Trier ou num videoclip da Bjork. Não me contive e gritei exigindo saber qual era o problema. Se, afinal de contas, até gostamos dos mesmo autores neo-góticos austríacos e temos a mesma opinião acerca de lulas congeladas, como era possível não sermos compatíveis? Que mais poderia querer ela? O que me faltava? Somos praticamente gémeos caraças! Eu o Danny e ela o Arnold. A dupla perfeita. Mais calmo sentei-me. Ela olhou para mim e disse-me que tinha recentemente encontrado uma velha amiga dos tempos de faculdade e que alguns sentimentos tinham regressado. Que se iria assumir como lésbica. Disse-lhe que nunca me importei com essas coisas e que, por mim, ela podia ser o que quisesse. Lésbica ou cabeleireira, cada um escolhe a profissão que quer. Afinal vivemos num país livre. Ela acusou-me de ser pouco inteligente. Perguntei-lhe porque dizia isso e mostrei-lhe o jornal de hoje. Fiz questão de lhe mostrar as palavras cruzadas todas feitinhas. Achas que isto é obra de alguém pouco inteligente? – perguntei. A resposta que obtive foi: Preencheste o Sudoku com letras Alfredo! Já agora, ser lésbica quer dizer que eu gosto de mulheres. Quero ter relações íntimas mas com mulheres percebes?
E foi neste momento que não aguentei mais, pulei da minha cadeira, abracei-a e disse-lhe suavemente ao ouvido enquanto lágrimas me escorriam pela face: Querida… eu também! Eu também! Somos tão iguais!
Ela afastou-me com um empurrão e saiu do restaurante a correr. Ainda lhe tentei dizer que havia uma casa-de-banho dentro do restaurante mas acho que ela não me ouviu. Malditos calamares!
CP

quinta-feira, julho 05, 2007

Diário de Alfredo (II)

Querido diário, já não escrevo há muito porque mais uma vez me envergonhei. Sempre ouvi dizer que se pedirmos um desejo ao avistar Vénus, esse desejo se torna realidade. Anteontem à noite olhei para o céu e avistando aquele brilhante planeta, fechei os olhos e pedi aquilo que sempre quis, encontrar o verdadeiro amor.
Quando abri os olhos reparei que o planeta já não estava lá... Ohei para todo o lado em desespero e finalmente avistei aquele brilho característico mas mais à esquerda do sítio onde deveria estar. Tinha pedido o meu desejo a um avião que estava a passar.
Contemplo a hipótese de me suicidar através do encravamento de unha. Parece-me, além de apropriado, eficaz.
CP

quarta-feira, junho 06, 2007

Diário de Alfredo (I)

Terça-Feira, 03 de Novembro
Hoje a M. convidou-me para tomar um café. Enquanto conversávamos o tópico voltou a cair sobre o porquê da minha solidão. Não percebo como é que ela, sendo minha amiga de longa data e já tendo sido minha amante ainda não entendeu o que é que eu quero de uma mulher. Penso ser um tipo normal, que não procura nada de muito especial, apenas alguém a quem consiga fazer rir, de preferência sem ter de tirar a roupa para o conseguir.

Segunda-Feira, 13 de Dezembro
Há muito que não escrevia. Encontrei alguém! Felicidade. Ela é perfeita para mim. Tem as suas manias mas é muito alegre, bonita e segundo os últimos exames possui um Q.I. superior a 115. Resta saber quando falará comigo. Suponho que derramar café quente em cima dela não tenha sido a melhor abordagem. Mas tenho esperança de que quando ela sair da unidade de queimados irá querer dar-me uma palavrinha que seja. A vitória é minha!

(Continua)
CP