quinta-feira, junho 09, 2005

Carta a um editor

Caro director da editora ****** caso não saiba, deixe que lhe tente explicar como funciona o mundo dos livros. Há quem os escreva, há quem os faça, há quem os publique e há também quem os compre. Infelizmente o senhor é dono de uma pequena editora e, como muitos pequenos editores, está cheio de boas intenções, mas digo-lhe que nos dias que correm isso não chega (e pergunto-me se alguma vez terá chegado). Acontece que, tal como muitos outros senhores editores, vossa excelência publica o que lhe dá prazer ler e o que acha que o senhor e seus amigos gostariam de ler e por aqui começam os seus problemas. Vou tentar explicar a situação de modo a que o senhor possa perceber. Quando o senhor resolve publicar um livro, e desde já lhe digo que lhe ficamos gratos pelo seu trabalho, se pretende fazer algum dinheiro com a publicação, não pode pensar exclusivamente se o senhor e seus amigos (por muitos que sejam) gostarão de ler esse livro. Em vez dessa linha de pensamento, vossa sumidade deverá ponderar acerca do mercado alvo existente para esse livro, tendo em conta o número (pequeno) de pessoas existentes no nosso pequeno pais e ainda no número (ainda menor) de pessoas letradas e já agora, porque não pensar também no número (ainda mais reduzido) de pessoas com capacidade económica para comprarem esse livro. é que, analisando os livros que insiste em publicar, podemos verificar que eles se dirigem a dois mercados alvo bastante distintos, a saber, aos estudiosos e aos curiosos. Sei que à partida, lhe parecerá que estes são os mercados melhores contudo deverá ter em atenção o seguinte: se publica um livro para estudiosos, e se se esmerar na edição, ou seja se exigir uma qualidade elevada do papel, um número razoável de páginas, uma capa "à maneira" e se fizer a edição em capa dura (para ficar mais bonito e resistente), verá como tudo isto irá encarecer o seu produto. O encarecimento não é, por si mau, uma vez que se fizer uma tiragem elevada, poderá abater custos. Mas (e aqui temos o primeiro GRANDE "mas") o senhor não vai poder efectuar essa tiragem enorme. e porquê? Porque vivemos num pais pequeno com poucos consumidores e porque não tem espaço no armazem e porque não lhe compensa o trabalho pois não? Ficaria a arder porque até tem consciência do simples e quase inocente facto de que estudiosos, há poucos! E esses poucos, como estudiosos que são, vão querer comprar o livrinho que o senhor amavelmente publicou para eles. E não se irão importar de pagar os 30 Euros que habitulamente um típico livrinho para estudiosos custa na sua banca da feira. E o seu mundo funciona às mil maravilhas. Pensa o senhor! E não funciona como o senhor pensa, porque os estudiodos não são em número suficiente caro amigo editor! E até podem pagar o balúrdio que o senhor pede, porque não têm outra hipotese, mas são poucos e não pagam o livro, muito menos o seu trabalho e o trabalho dos que estão ao seu serviço. Agora passemos aos acima denominados curiosos. Esta classe de potenciais compradores de livros distingue se da primeira através de um simples facto, eles são apenas curiosos! O que isto quer dizer é que, ao contrário dos estudiosos, os curiosos não precisam do seu precisoso e caro livrinho. E o que acontece quando um especime curiosus persoanae passa pela banca da editora ******? O fenómeno é descrito por muitos como repudio precius o que, para quem não sabe estes estranhos linguajares académicos, quer apenas dizer que a sua curiosidade instintiva é abalada pelo custo do objecto que havia despertado dita curiosidade.
Resumindo, vossa magnanimidade omnipotente comete o grave erro de publicar livros (bons ou maus já que isso é irrelevante neste momento), que das duas uma: ou apelam a um grupo que é demasiado escasso para que o volume de vendas dê lucro ou, despertam a mera curiosidade de um grupo que, não tendo genuíno interesse no produto oferecido, se vê obrigado a procurar novo livrus alimentitio (ou o alimento em forma de livro) em outras paragens menos dispendiosas, uma vez que (e por favor esta era básica!) ninguém dá 30 Euros por curiosidade nos dias que correm!
E desta forma se pode concluir que a sua editora esteja a dar prejuízo caro e excelso senhor. A culpa não é propriamente dos seus mui esforçados empregados mas tão somente da sua falta de visão comercial.
CP

P.S.
Já agora não julgue que por importunar os clientes, ou potenciais clientes, os vai obrigar a comprar o seu produto. Quem não tem dinheiro não o pode, infelizmente, inventar. E aqueles que o têm mas que não querem comprar o que o senhor tem para oferecer, esses não lhe farão a vontade por muito simpático que o senhor seja! Caso não saiba, essa ténica de vendas é usada (infelizmente) pelos jovens da área da restauração da Feira Popular de Lisboa em Entrecampos, o que dá apenas origem a um abandono progressivo da zona, uma vez que ninguém gosta de ser importunado por indivíduos completamente desesperados, garantindo-nos que no seu "sítio" é que é bom.
Simpatia Q.B. meu caro senhor! Por favor aprenda a lição de uma vez!

3 comentários:

Toranjinha disse...

Ora bem... Uma cartinha muito bem redigida, mas, esqueceste uma coisa, CP... Os estudiosos... bem... não sei se tu és um destes estudiosos que vou agora referir... recorrem à fotocópia!!
Ah, pois é! E assim damos mais um chuto no cu do orçamento do caro editor. É que ter os livrinhos encadernados (as partituras originais) é tudo muito bonitinho, mas já ninguém usa isso.
Posso dizer que uso as partituras com a mesma regularidade que uso o papel higiénico. Agora imagina se, por cada 10min de música em partitura, eu pagasse esse dinheiro todo?
Havia de ser lindo, sim senhor...
Fotocópias! Fotocópias!lol
Jokas

Toranjinha disse...

"Limpa-se ao jornal..."

CP disse...

De facto parece que olvidei os tempos de estudo em massa...imperdoável....onde está uma ponte à mão quando precisamos?